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É ótimo ver a difusão do MMA mundo a fora, mas será que vale tudo nesse processo?

Dos diversos esportes de combate que existem, o MMA é o que mais me atrai por ser aquele que mais próximo consegue chegar de uma luta real e por exigir múltiplas valências do competidor que deseja se destacar no esporte. Desde que a família Gracie disseminou as competições de vale-tudo com o objetivo de provar a superioridade do jiu-jitsu como arte marcial até os dias de hoje, não se passou tanto tempo assim e ainda temos um esporte “novo” com muito ainda por crescer.

O crescimento do esporte tem sido tão grande que hoje há uma enormidade de eventos espalhados mundo a fora, são incontáveis eventos nos lugares mais inimagináveis como vocês podem ver na brilhante coluna MMA pelo Mundo do nosso amigo Fernando Justino, e isso realmente é muito bom, pois onde há a prática, há a possibilidade de surgir um novo talento e de transformações de vidas através do esporte (e isso vale para qualquer modalidade), mas em esportes de contato intenso como nas lutas há de se ter cuidado para que não aconteça algo que ponha por terra anos de esforço empregados para mostrar que o MMA não é uma rinha humana, como até hoje acusam os detratores.

A Rússia é um dos celeiros de talentos para o MMA, vira e mexe surgem grandes lutadores russos que migram de modalidades tradicionais como o Wrestling e o Sambô para os ringues e cages pelo mundo e alguns deles se transformam em ídolos, tendo como maior expoente o grande Fedor Emelianenko que reinou por anos invicto entre os pesos-pesados e é tido por muitos como o maior de todos os tempos (discussão que deixaremos para outra oportunidade). Com um povo admirador das lutas e o frequente surgimento de talentos, não é de se espantar que a Rússia também tenha muitos eventos e um desses eventos, o World Fight Championships of Akhmat (WFCA) gerou muita polêmica em sua última edição.

O WFCA é um evento organizado pelo ditador checheno Razman Kadryov, que em sua última edição levantou polêmica ao ter no card três lutas infantis nas quais tomaram parte 3 filhos do citado líder com respectivamente 11, 10 e 9 anos de idade sendo que as crianças lutaram sem qualquer tipo de proteção diferenciada conforme se vê nas fotos abaixo:

Photo by Fight Club Akhmat / VKontakte

Photo by Fight Club Akhmat / VKontakte

Não é nenhuma surpresa que isso tenha gerado opiniões divergentes e muita polêmica. A lenda russa Emelianenko que hoje divide seu tempo entre sua recente volta às competições e como presidente da união russa de MMA foi duro em suas críticas e classificou o episódio como inaceitável e injustificável enquanto outros lutadores manifestaram apoio ao evento e ao seu líder. O campeão dos moscas do WSOF e participante do card Magomed Bibulatov classificou a fala de Fedor como “nonsense” e “um ato de relações públicas” dizendo ainda que “qual criança nunca lutou?” e que “melhor que fizessem isso num cage onde tem médicos e juízes profissionais que na rua cercado apenas por crianças mais velhas” dentre outras críticas direcionadas a Fedor. Já o ex-campeão do UFC Fabrício Werdum também saiu em defesa da prática dizendo:

– “Não só sou a favor como acredito que as crianças devem competir em qualquer tipo esporte, contanto que seja seguro e bem preparado para isso. Akhmat MMA Fight Club fez um grande show com seis crianças competindo MMA com regras diferentes do esporte para adultos. Crianças competem por todo mundo em outros esportes de contato, como caratê, judô, muay-thai, jiu-jitsu, boxe e taekwondo”.

Opiniões diferentes sobre o episódio pipocaram internet a fora, mas eu confesso que nem tive coragem de ver nada além de poucos segundos dos vídeos e dessa imagem que eu pesquisei para ilustrar a coluna, então nem preciso falar que sou totalmente contra a ver crianças que mal começaram seu desenvolvimento físico e psíquico trocando porrada para valer num cage, ainda mais sem proteção nenhuma como as imagens e os vídeos espalhados na internet mostram. Eu sou sempre a favor da introdução de crianças no esporte, que se feito da maneira correta, traz valores e benefícios que a pessoa levará consigo para a vida adulta e se refletirá na sua qualidade de vida e na transmissão desses valores aos seus descendentes, mas em se tratando de artes marciais/ lutas acho que há de se ter um pouco mais de cuidado para os resultados não serem desastrosos.

Como disse Werdum, é fato de que crianças pelo mundo todo praticam e competem em esportes de contato em muitos lugares do mundo, o que o gaúcho convenientemente não lembrou (talvez porque os organizadores o patrocinam) é que em muitos desses esportes há além de toda uma filosofia de respeito envolvida na arte-marcial, as regras são alteradas e/ou os participantes usam proteções específicas de modo a minimizar os impactos e os possíveis danos causados, o que não ocorreu no evento citado por ele. Talvez o MMA possa sim, num futuro, ser praticado por crianças, mas por se tratar de um esporte ainda jovem cujas consequências de danos acumulado pelos anos de prática e no desenvolvimento das crianças ainda não estão nem perto de ser conhecidas, como seriam as proteções adequadas e que tipo de instrutores teríamos para orientar essas crianças, eu não sou a favor por achar que um pequeno erro nessas circunstâncias poderiam trazer consequências muito indesejáveis para os praticantes mirins.

No seguimento das palavras de Fedor Emelianenko, chamou a atenção o modo com as quais elas foram recebidas na Chechênia, inclusive com ameaças por parte de importantes aliados do líder sendo que um deles afirmou que “Fedor seria responsabilizado pelas palavras contra os filhos de Kadryov” e eu considero um tanto problemático que pessoas desse tipo estejam envolvidas com o esporte, ainda que sejam tão admiradores dele quanto a gente. Acho que o MMA por si só tem um potencial enorme de crescimento e ainda que não tivesse, não vale tudo para vermos o esporte que gostamos em destaque.

  • Victor Fernanda Almeida

    Era notório que o Werdum apoiasse o evento, afinal ele é embaixador do mma por lá.
    Olha eu não concordo muito com a idéia, pelos mesmos motivos que apresentou no texto, mas é um caso a se pensar, com capacete, equipamentos e regras adequadas.

    • Juan Macêdo

      Victão, eu sou contra mesmo com o uso de capacetes. O COI já retirou os capacetes do boxe olímpico porque o uso dos mesmos é agrava os riscos à integridade física dos pugilistas. Além disso, MMA é coisa pra quem já tem um certo entendimento de alguns aspectos da luta, sendo assim, penso que para crianças é melhor começarem treinando modalidades isoladas com judô, caratê, jiu-jítsu, boxe, etc., para adquirirem intimidade com tais aspectos e aí sim, depois de adultos, poderem enveredar pelo caminho do MMA.
      Abraço.

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