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UFC e o caso de amor e ódio entre esporte e entretenimento

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Eu sei que o assunto que eu quero abordar nesse artigo é polêmico e que pode gerar muita divergência e horas de discussão, mas ainda assim vou mexer no vespeiro e tentar, junto com os leitores, desenvolver um ponto de vista.

Quando foi criado, o UFC não tinha nenhuma intenção de se consolidar como esporte. O intuito dos seus criadores era simplesmente colocar vários competidores de diversas artes marciais no cage para lutarem quase sem nenhuma regra e decidir ali qual arte-marcial seria a melhor. Só que isso evoluiu com a percepção de alguns atletas que para se sobressaírem precisavam treinar de tudo, e a questão mudou entre descobrir a melhor arte para descobrir o melhor competidor e foi desenvolvido o estilo que hoje chamamos de MMA. Para se tornar um bom lutador no MMA o postulante precisa reunir qualidades técnicas (em disciplinas diferentes de luta), físicas, mentais além de saber como aplica-las nas mais diversas situações que um combate pode proporcionar. Então, olhando assim cruamente, poderíamos considera-la um esporte, que no meu ponto de vista ainda está em desenvolvimento, uma vez que ainda precisa incorporar filosofias e valores que o esporte e as artes marciais possuem. ResumindoAlguém pode dizer que é um esporte, pero no mucho.

Royce Gracie Finalizando Ken Shamrock no UFC 1

Royce Gracie Finalizando Ken Shamrock no UFC 1

O UFC é a maior organização de MMA e tem, teoricamente, os melhores atletas do mundo competindo entre si para saber quem é o melhor nas respectivas divisões de peso. Para isso, há de se ter uma forma de definir quais são aqueles que tentarão alcançar a glória máxima da sua categoria, que é o cinturão, e quais ficarão pelo caminho. E é justamente alguns dos critérios embutidos nessa escolha que têm gerado grande polêmica.

Ao mesmo tempo que o MMA desenvolveu características presentes num esporte, os esportes de combate em geral diferem de ligas esportivas já que é inviável fazer torneios anuais com todos os atletas disputando entre si para definir um campeão a cada temporada. Essa inviabilidade vem muito da exigência física de um esporte cujo o grande objetivo é causar danos no oponente, o que demanda um tempo de preparação e recuperação bem maior de seus praticantes. Então, se formos comparar uma liga cujo produto ainda tenta se firmar como esporte, como o UFC, com ligas centenárias nos USA, como a NFL ou a MLB, não seria, na minha opinião, uma comparação válida.

 Também erraremos se formos comparar o MMA com o jiu-jitsu ou até com outros esportes de combate como o taekwondo ou o judô, que tem diversos torneios, grand-prix e meetings ao redor do mundo, porque o MMA tem um contato físico muito mais intenso, com a possibilidade maior de contusões e danos, exigindo muito mais da preparação do atleta e do desempenho dele em combate.

A competidora do Bellator Anastasia Yankova antes e depois da sua última luta

A competidora do Bellator Anastasia Yankova antes e depois da sua última luta

Como eu disse anteriormente (e isso vale também para o boxe), existe a impossibilidade de colocar todos para sair na mão com todos e no final o melhor ter a chance de ser declarado o campeão, e é por isso que os esportes de contato mais intenso seguem (ou deveriam seguir) um ranqueamento para definir os postulantes a melhor lutador de cada categoria de peso e com base nisso as lutas serem casadas. O problema de um ranking nesse caso é que nele, apesar da possibilidade de inclusão de critérios objetivos, também se fazem presentes alguns critérios subjetivos uma vez que todos não enfrentam todos e não existe uma lista dos “Top alguma coisa” que não gere discórdias e divergências (em maior ou menor grau) entre quem acompanha o esporte.

Outro aspecto importante que mostra a diferença dos esportes de combate para os esportes tradicionais é que os espectadores se interessam por eventos individuais e não por uma temporada completa, então, para o mesmo se manter em evidência, há a necessidade de se levar o desejo dos fãs em consideração. Some a isso o fato dos eventos de MMA serem geridos por empresas que visam lucro e… pronto: já começam as polêmicas! Já que, além das vitórias e performances consistentes no octagon, o atleta tem que ser conhecido o suficiente para que os fãs manifestem interesse em vê-lo, ou seja, os aspectos de esporte e mídia parecem estar intrinsecamente ligados até esse ponto.

Mas e como decidir entre um e outro quando eles entrarem em conflito? E como decidir qual que vai levar a melhor?

Vamos pegar, por exemplo, alguns casamentos de luta recente que têm gerado discussões acaloradas entre os fãs e também polêmica entre os atletas, já que, supostamente, seriam casamentos injustos levando em conta a situação (esportiva) de cada categoria.

No último dia 8 aconteceu em Manchester, na Inglaterra uma das lutas que tiveram seu casamento questionado. Michael Bisping fez a sua primeira defesa de cinturão contra o americano Dan Henderson, que é indiscutivelmente uma lenda do esporte mas estava longe da melhor fase da carreira, sendo apenas o 13º colocado (num ranking que enumera 15) quando recebeu a oportunidade de uma luta derradeira pelo título. Isso gerou uma controvérsia muito grande no meio, com lutadores, como Ronaldo Jacaré, se sentindo prejudicados quanto à falta de critério esportivo na decisão.

Uma das muitas encaradas entre Bisping e Dan Henderson

Uma das muitas encaradas entre Bisping e Dan Henderson

É notoriamente óbvio que, esportivamente falando, ser o 13º colocado num ranking não é credencial suficiente para ninguém furar a fila de 12 outros lutadores e ter a chance do título, ainda que se tenha um histórico de rivalidade ou de um combate anterior entre os dois lutadores citados. Ou alguém acharia sequer plausível a próxima disputa de cinturão entre os pesados ser entre Stipe Miocic e Stefan Struve, atual 12º do ranking dos pesados e responsável pelo único nocaute sofrido pelo atual campeão na carreira?

Por favor, antes de me bombardearem falando que eu estou comparando as carreiras de Hendo e Struve, reflitam um pouquinho e vejam que eu jamais ousaria a fazer esse tipo de comparação. A carreira do Hendo é merecedora de todos os elogios e digna de Hall da Fama do esporte, coisa que salvo um (ou mais) milagre(s) do destino, a de Struve sequer poderá sonhar em chegar perto. O meu ponto aqui é que apesar de Henderson ser uma lenda do esporte, ele não estava num momento esportivo propício para disputar o cinturão. Teve quem defendesse o Title Shot para o Hendo, como o amigo e colunista André “Bicudo.  Façam uma pequena retrospectiva e reparem que os argumentos que ele apresenta ao defender o seu ponto de vista são válidos e coerentes, mas fogem do aspecto esportivo e consideram muito o aspecto comercial, e, apesar de respeitar quem pensa dessa forma, continuo discordando.

O primeiro UFC em NYC também não poderia deixar de carregar sua dose de polêmica com o fanfarrão e midiático Conor McGregor sendo escalado para a luta principal do card desafiando o cinturão de Eddie Alvarez, numa super-luta entre os campeões dos penas e dos leves, o que causou uma reação exacerbada do campeão-interino Aldo, inclusive com declarações de aposentadoria. Mais uma vez aqui, se formos levar em conta o aspecto puramente esportivo, temos um exemplo de luta que, além de mal-casada, está travando duas categorias muito competitivas. E, levem em consideração, que eu não sou contra super-lutas entre campeões, só que acho que esse tipo de luta, para fazer sentido esportivo, tem que envolver um campeão dominante da categoria inferior, o que não chega nem perto de ser verdade. Isso era o caso quando José Aldo era o campeão dos penas, pleiteou essa luta junto aos executivos do UFC e teve como resposta que teria que abandonar o seu título para tentar a chance na categoria de cima, exigência que não foi feita para Conor McGregor, que, mesmo antes de pensar em defender seu cinturão, já tinha a chance pelo cinturão dos leves e depois de apenas 2 lutas nas 170 lbs (1-1 contra Diaz) vai disputar o título das 155, o que gerou a revolta de Aldo.

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Conor McGregor na conferência de imprensa do UFC 205

McGregor é um ponto fora da curva e o primeiro nome citado entre os homens quando se pensa no impacto midiático e em toda essa discussão que estamos propondo. O irlandês é um showman que ao ver uma câmera se transforma, procurando ser o centro das atenções e o nome mais falado. Para perceber isso basta assistir alguma das coletivas de imprensa da qual ele participa e reparar que ele frequentemente é o mais acionado além de, não raras vezes, atravessar perguntas direcionadas para os outros sendo desrespeitoso e mal-educado. Toda essa busca de atenção por parte do irlandês acaba encontrando eco na imprensa, que acaba transformando isso num ciclo, direcionando a maior parte das perguntas para Conor e o irlandês cada vez mais tentando aparecer para gerar buzz em torno de seu nome.

E o último evento do ano também lançou a mais recente polêmica com a definição que Amanda Nunes fará sua primeira defesa de cinturão contra a ex-campeã e também estrela midiática Ronda Rousey, o que causou grande insatisfação também, dentre outras lutadoras, na campeã do TUF, e atual #5 do Ranking Julianna Peña, que, a exemplo de Aldo, falou em abandonar o UFC.

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Ronda Rousey

Ronda Rousey é um enorme sucesso midiático por sua beleza, pelas performances arrasadoras e pela personalidade, podendo ser apontada como a grande responsável por hoje termos a possibilidade de assistir lutas entre mulheres no maior evento do mundo. Além disso, ela era, até sua última luta, uma campeã superdominante. Pelo critério que o UFC adotou em algumas ocasiões (principalmente com seus queridinhos) teria a oportunidade da revanche imediata para recuperar o cinturão que já possuíra. Mas, ao abrir mão para tirar um merecidíssimo tempo de repouso (já que era uma das mais ativas dentre os campeões do UFC), deveria ter de fazer pelo menos mais uma luta antes para esse retorno ao posto de contender ser esportivamente mais coerente.

Em maior ou menor grau todas essas lutas geraram controvérsia, tiveram defensores e detratores. Eu particularmente não achei muito justo o casamento de nenhuma delas porque, em minha opinião, como fã que não está diretamente envolvido com o balanço e os rumos da empresa, o critério esportivo sempre deveria prevalecer sobre o critério midiático. Compreendo que o lado comercial/midiático jamais será (e não deve ser) inteiramente desprezado, pois o UFC é gerido por uma empresa que visa lucros e que os atletas dependem desses lucros para que possam ter suas bolsas pagas, mas, apesar dessa compreensão, eu gosto de ver lutas bem casadas, movimentadas e na disputa de cinturão eu quero ver alguém que mostrou qualidade conquistando o direito de desafiar o campeão pelos feitos dentro do cage.

Óbvio que não descarto uma situação na qual em determinado ponto dois atletas podem estar em situação semelhante na corrida pelo título e alguém que vender mais possa ser privilegiado sem que seja absurdo. Eu mesmo já ponderei sobre a questão da mídia, do quanto o atleta deve se preocupar em ser “vendável” e gerar interesse em si quando escrevi sobre a estréia da Mackenzie Dern  mas aí teríamos que entrar numa outra grande discussão do que significa “vender a luta”. Infelizmente esse “vender” acabou se transformando em sinônimo de aparecer com declarações controversas ou fazendo trash-talking, o que muitas vezes acaba passando do limite e ofuscando grandes lutadores que simplesmente não são desse estilo, como Demian Maia.

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Demian Maia encaixando um mata-leão em Carlos Condit

Demian é um excelente lutador, com um jiu-jitsu muito fino que parecem verdadeiros seminários dentro do octagon, fazendo com que eu tenha vontade de ver todas as suas lutas. Ou seja, pra mim, ele vendeu seus combates. Só que, salvo algumas entrevistas nas quais ele pediu a chance pelo título, não gera tantas notícias (e nenhuma polêmica) em torno de seu nome, pois além de ser polido e muito bem articulado, Demian traz consigo a filosofia de respeito das artes marciais, não se envolvendo em qualquer rixa ou provocação com adversários, podendo, devido a isso, acabar sendo considerado um nome pouco “markeatable” e não seria bom para o esporte se surgisse uma figura falastrão como Nick Diaz (para citar algum meio-médio) e furasse a vez do Demian, já que virou moda falar em “Money fights” e com exemplos de campeões querendo escolher adversários com base nisso. Poderia também citar aqui o atual #1 do ranking pound-for-pound Demetrious Johnson e as incontáveis vezes que já ouvi que “ele não vende porque as “lutas de levinhos são muito chatas”.

Eu sei que nem todos os expectadores do UFC têm as mesmas preferências, ou pensam como eu, nos casamentos de lutas, no que admiram ou deixam de admirar em determinados atletas. Sei, também, que muita gente vai pensar diferente de mim e preferir o pessoal mais falastrão, que faz trash- talking e aproveita qualquer espacinho na mídia para alfinetar o adversário. Até acho válida uma tirada inteligente, uma provocaçãozinha de vez em quando e também não digo que é de todo ruim ter uma luta apimentada e com alguma rivalidade real entre os lutadores, mas quando se detecta que esse tipo de comportamento é o que mais tem vendido entre os fãs, corre-se o risco de ficar muito uniformizado, artificial além de ter alguém tentando forçar um pouco mais e ir além da conta, como foi o caso do já citado Conor McGregor chamando Dennis Siver de nazista. Outra preocupação com o desenvolvimento do MMA como esporte, é que se esse tipo de mensagem for aceito como corriqueiro e o natural, acaba transmitindo valores muito diferentes da esportividade, companheirismo e respeito ao adversário, dogmas já difundidos em outras modalidades e essenciais no âmbito esportivo. Afinal, quando tratamos de um esporte, pensamos em algo que possa ser divertido e apreciado por crianças e adultos, e acredito que ninguém apresentaria ao seu filho ou filha uma modalidade na qual o cara que é tido como o rosto da mesma tem um comportamento controverso, para dizer o mínimo.

Agora eu passo essa batata quente para frente e convido o leitor a opinar sobre o que ele acha dessa questão. Esporte ou entretenimento puro? Performance ou mídia? Vamos trocar uma ideia aí nos comentários.

 

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